«Ora aqui temos o livro mais violento da literatura contemporânea, quero eu dizer de uma violência bela e regeneradora. […] Quem não leu Heliogábalo não aflorou o verdadeiro fundo da nossa literatura selvagem.» J.M.G. Le Clézio, premiado em 2008 com o Nobel da Literatura.
Heliogábalo teve desde cedo o sentido da unidade que está na base de todos os mitos e todos os nomes; e a sua decisão de se chamar Elagábalo, e o encarniçamento que mostrou a esquecer-se da sua família, do seu nome, e a identificar-se com o deus que os cobre, faz uma primeira prova do seu monoteísmo mágico que não é apenas verbo mas acção.
Introduziu, a seguir, este monoteísmo nas obras. E é a este monoteísmo, a esta unidade de tudo que incomoda o capricho e a multiplicidade das coisas, que eu chamo anarquia.
Ter o sentido da unidade profunda das coisas é ter o sentido da anarquia — e do esforço a fazer para reduzir as coisas levando-as a convergir para a unidade. Quem tiver o sentido da unidade, tem o sentido da multiplicidade das coisas, desta poeira de aspectos que precisamos de atravessar para as reduzir e destruir.
Enquanto rei, Heliogábalo encontra-se no melhor lugar possível para reduzir a multiplicidade humana e levá-la, pelo sangue, pela crueldade, pela guerra, até ao sentimento da unidade.
— HÉLIOGÁBALO OU O ANARQUISTA COROADO, Antonin Artaud, p. 59.
Ter esta edição da Sistema Solar de Heliogábalo ou o Anarquista Coroado (2018) é, de certa forma, tocar no coração incendiário da modernidade literária. Antonin Artaud (1896-1948), mais conhecido pelo seu Teatro da Crueldade, deixou neste texto um dos retratos mais singulares e delirantes do imperador romano Heliogábalo — figura excessiva, dissoluta e iconoclasta, cuja breve passagem pelo poder (218–222 d.C.) foi marcada pela recusa da ordem e pela afirmação do desejo como princípio soberano. O livro, publicado originalmente em 1934, não é uma biografia histórica, mas antes um manifesto poético-filosófico em que Artaud projeta no imperador uma imagem da revolta contra todas as hierarquias. Nesta obra, Heliogábalo surge como um arquétipo do anarquista coroado: alguém que, no próprio centro do poder, o corrompe e o dissolve, instaurando o caos contra a norma, a festa contra a disciplina, o corpo contra a lei. É um texto de uma violência imaginativa rara, que mistura mito, história e poesia em busca de uma escrita capaz de incendiar o real. Não é por acaso que Gilles Deleuze e Félix Guattari encontraram em Artaud uma das grandes fontes do seu pensamento. Heliogábalo ecoa diretamente na sua teoria do “corpo sem órgãos” (corps sans organes), conceito que tomam emprestado de Artaud para repensar o desejo como força produtiva e revolucionária, contra a lógica repressiva do Estado, da psicanálise e do capitalismo. O imperador de Artaud, que confunde o sagrado e o profano e rompe os limites da identidade e da ordem, tornou-se para Deleuze e Guattari um modelo de desterritorialização, de explosão criadora e anti-estrutural que atravessa obras como O Anti-Édipo e Mil Planaltos. Assim, este livro não é apenas uma viagem pela imaginação radical de Artaud: é também uma chave para compreender um dos momentos mais decisivos do pensamento contemporâneo, aquele em que a filosofia pós-estruturalista se deixou contaminar pela energia poética e desestabilizadora de um escritor à margem. Na mão do leitor de hoje, esta edição da Sistema Solar devolve-nos Artaud em toda a sua urgência: como texto literário incendiário, como genealogia do pensamento libertário e como peça fundamental para entender porque é que a filosofia e a arte, quando verdadeiramente radicais, não podem ser separadas.





