«Os cinco textos de Péret e Gombrowicz aqui coligidos não são necessariamente afins. à parte a sua contemporaneidade (anos 40-50), há entre eles grandes diferenças. Para começar, Péret é um poeta, e Gombrowicz ataca os poetas; e a biografia de ambos é diversa: Péret é declaradamente um revolucionário, Gombrowicz um solitário, porventura um niilista. Os textos de um e do outro falam pois de coisas diferenciadas. Aproxima-os, no entanto, uma semelhante e sentida crítica da inautenticidade, que é, bem entendido, actual.
Péret não pode admitir que o poeta seja um conformista, se deixe escorregar para o nada, sendo pois a poesia do conformismo a que ele vitupera. Gombrowicz, por seu lado, vê no poeta, e no seu caso até por razões de forma, antes de mais um mundano, um fala-barato, um ser artificial. Entre a veemente defesa da poesia como acto de insubmissão, do primeiro, e a condenação da poesia como “extracto farmacêutico”, do segundo, vemos nós encorpar-se uma crítica da poesia escrita como manifestação invertebrada, como expressão abastardada para consumo de pequenos fura-vidas e palermas culturais.»
Benjamin Péret (1899–1959) foi um poeta surrealista francês, militante comunista e trotskista, cuja obra, marcada por humor corrosivo, imaginação delirante e crítica feroz à moral burguesa, uniu vanguarda artística e engajamento político. Witold Gombrowicz (1904–1969), escritor polonês exilado na Argentina e depois na França, explorou em romances, peças e diários o absurdo das convenções sociais, a tensão entre imaturidade e forma, e o desconforto existencial do indivíduo frente às máscaras impostas pela cultura.




