ANIMAL DE BOSQUE — JOAN MARGARIT

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ANIMAL DE BOSQUE
Author: Joan Margarit (trad. Àlex Tarradellas, Rita Custódio, Miguel Filipe Mochila)
Language(s): Catalan, português (bilingue)
Publisher: Língua Morta, 2024
Size: 200 x 135 mm
Pages: 200 pp

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A alegria é que me faz escrever.
Deixa sempre o seu rasto em algum verso.
Por medo à crueldade dos convictos
calei muitas coisas, por exemplo,
uma já velha aversão às pátrias,
à minha e à dos outros. Quando era jovem,
sobrevivi também às ameaças
de quem, com mão de ferro,
conduzia a sombria manada humana
fazendo-a despenhar-se pelos penedos.
Só a intimidade é um espaço real:
o refúgio onde podemos resistir.
Nunca mais voltes a sair de casa.

— «Orfeu», p. 43.

Joan Margarit nasceu em 1938, em Sanahuja, na Catalunha. Seguindo a profissão do pai, formou-se em Arquitetura e chegou a trabalhar nas obras da Sagrada Família, em Barcelona, além de lecionar durante anos na Escola de Arquitetura da mesma cidade. A convivência entre cálculo estrutural e criação poética marcou profundamente a sua visão: para Margarit, a poesia, como a arquitetura, exige solidez e rigor na construção. Começou a escrever na adolescência. Em 1963 casou com Mariona Ribalta, presença recorrente em toda a sua obra, e publicou o seu primeiro livro, Cantos para la coral de un hombre solo. Seguiu-se um longo silêncio editorial até Crònica (1975), obra que consolidou a sua reputação apesar da ainda curta bibliografia. Durante os primeiros anos publicou em duas línguas, mas na década de 1980 decidiu dedicar-se exclusivamente ao catalão, embora continuasse a traduzir muitos dos seus próprios poemas para o espanhol. O reconhecimento não tardou: em 1982 recebeu o primeiro prémio literário, com Vell malentès. Mais tarde, com Casa de Misericòrdia, conquistou o Prémio da Crítica Nacional, e em 2009 publicou o seu único ensaio, Nuevas cartas a un joven poeta. A consagração definitiva veio em 2019, quando obteve simultaneamente o Prémio Cervantes e o Prémio Rainha Sofia, distinções que o colocaram entre os grandes nomes da poesia ibérica. Em 2020 apareceu Animal de bosque, livro de despedida marcado pela memória e pela consciência da morte. Margarit faleceu nesse mesmo ano, vítima de linfoma, deixando uma obra de rara clareza emocional e de permanente busca pela solidez da palavra.
Última obra de Margarit, Animal de Bosque conta com 59 poemas em catalão, ao lado traduzidos em português por Àlex Tarradellas, Rita Custódio e Miguel Filipe Mochila. «No caso concreto de Animal de Bosque, livro dedicado à Mariona, a Raquel dos seus poemas», escreve-nos Tarradellas, «não tenho dúvidas de que estamos perante uma das declarações de amor mais emotivas alguma vez feitas através da literatura. Ter a lucidez de escrever estes versos imortais sabendo que a morte espreitava já no horizonte só pode ser próprio de um grande poeta, de um poeta a quem, tal como disse no último verso de «Soneto de Lisboa», sempre restou a fúria de sonhar. A fúria de construir, como bom arquitecto que era, o templo da poesia, a última casa da misericórdia». Mochila, por sua vez, diz que «os seus são versos cultos, mas nunca cultuais, e nem culturalistas, e muito menos culturistas. São versos humanos e íntimos, e nunca umbiguistas. São versos do seu tempo, mas nunca circunstanciais. Gostava de partilhá-los, com aquela ancestral juvenilidade de apaixonado deslumbrado e responsável que lhe vi nessa primeva Primavera de Barcelona, sabedor da sorte urgente e do peso do poder que no seu dom carregava. Quantos e quantos o ouviram recordarão decerto a sua incomparável declamação comovida, que nunca se fez publicitária. Odiava, sim, tudo o que cheirasse a utensílio panfletário, a negócio emproado de poesia maiúsculas, a puñetera politiquice, a bem-parecente e bem-pensante farsa. E amava e cuidava tão devotamente estes seus ódios que eram eles já a segunda mais pura expressão da seriedade do seu amor à vida e à poesia.»